domingo, 16 de maio de 2010

Uma Breve História do Mundo

No início tudo era escuridão e silêncio. Nada existia, nem mesmo a escuridão e o silêncio. De alguma forma, o universo se formou e agora podemos ver vários pontos luminosos em meio à escuridão. Não nos interessa saber como ou por que isso aconteceu. Essa é uma resposta que nunca teremos.
Em meio a inúmeros pontos de luz, focamos nossa atenção em um em particular e vamos, aos poucos, nos aproximando dele. Esse ponto chama-se Via Láctea e conforme nos aproximamos, ele fica cada vez maior e percebemos que ele também é composto por incontáveis pontos de luz.
Focamos nossa atenção novamente em um ponto específico dentro na galáxia e nos aproximamos dele e, conforme chegamos mais perto, a sensação de que estamos em frente a algo familiar fica cada vez maior. Por fim, reconhecemos que esse ponto em especial, na verdade, é o nosso Sol.
Lá distante, um pequeno ponto azul pode ser visto. É o nosso planeta Terra, que agora é habitado pelos primeiros seres humanos. Vamos chegar mais perto desse planeta, ou melhor, vamos pôr nossos pés nele!

Os humanos, uma espécie recém formada e muito primitiva, mas ainda sim, mais evoluída que todas as outras. Estamos em meio a eles agora. Eles não podem nos ver, portanto não sinta medo.
Quero que os observe, que estude seu comportamento, que aprenda com eles. De início podem parecer animais, mas lhe garanto que sua opinião a respeito deles vai mudar muito em breve.
Estamos vendo um grupo formado por aproximadamente trinta humanos, sendo que apenas seis são mulheres, onze são crianças ou adolescentes e os demais são todos homens.
Notamos que a pessoa mais velha é uma mulher, que não aparenta ter mais do que vinte anos, mas acredite: ela é muito idosa para a espécie dela e irá morrer em breve de causas naturais. Assim como um animal primitivo, os primeiros humanos também não têm uma expectativa de vida muito grande.
Eles não possuem uma linguagem muito avançada, mas com certeza eles entendem o que o outro quer dizer. Parecem mais estar resmungando do que propriamente falando algo. Perceba que eles não estão nus como animais selvagens, pois aprenderam a fazer roupas para se proteger do frio e das doenças. Nada além disso.
Além das roupas, eles aprenderam muitas outras coisas, como o fogo, a construção de armas e ferramentas usando pedra e madeira, abrigar-se em cavernas para proteger-se do frio e de predadores e muitas outras que não convém listar.
Com tudo isso, eles passaram a ter uma vida mais fácil do que a das outras espécies primitivas. Afinal, um homem precisa de alimento tanto quanto um peixe precisa. A diferença é que o peixe raramente pode caçar um animal maior que ele.
Outro ponto a observar é que esses humanos não têm um deus, nem algo parecido a que adorar. Eles vivem suas vidas sem um propósito final, como o de alcançar o Paraíso. Na verdade, eles apenas vivem suas vidas com a certeza de que irão morrer.
Observe ao seu redor e note o quão deserto é o ambiente. Não há outro ser humano num raio de quilômetros daqui. Podemos considerar esse pequeno grupo de pessoas à nossa frente como uma comunidade ou mesmo uma pequena tribo, embora esses conceitos ainda não existam.
As mulheres são fracas demais para caçar ou trabalhar, portanto as suas tarefas se resumem a cuidar das crianças, da “casa” e, eventualmente, colher vegetais. Alguns homens saem para caçar, outros ficam fabricando armas, ferramentas e roupas e outros, por conta de algum tipo de doença ou deficiência não fazem nada ou no máximo ajudam a ensinar as crianças.
Sendo os humanos, seres primitivos que evoluíram, mas ainda sim primitivos. Se eles não almejam o Paraíso ou mesmo têm grandes ambições. Então, meu bom amigo, quais são seus propósitos de vida?
Assim como todos os seres vivos, eles só desejam duas coisas: sobreviver e perpetuar a espécie. Como eles fazem isso? Apenas continue observando e terá a resposta.
Vamos nos concentrar naquele homem em especial. Note que ele está limpando a pele de um animal para fazer uma roupa melhor para usar, pois a dele já está gasta e rasgada. O que ele pretende com isso? Por que ele não continua a usar a roupa velha?
Ele simplesmente sabe, por experiência, o que acontece se ele se deixar descuidar com o frio ou com as doenças. Ele sabe o que pode acontecer caso esbarre numa planta venenosa ou fique exposto ao frio por muito tempo. Ele simplesmente não quer morrer.
Outro bom motivo para isso é que todos os outros humanos irão ver sua roupa nova e isso é bom. Não para gerar inveja, mas para mostrar que ele está interessado em continuar vivo. Isso é especialmente interessante para as mulheres na hora de escolher um homem para gerar seus filhos.
Uma mulher não quer um homem fraco, doente, que não saiba ou não se interesse em caçar. Ela quer sempre o que tem maiores chances de sobrevivência, ela quer apenas o melhor homem. Não por ele, mas pelo que ele irá transmitir geneticamente a seus filhos.
Assim como a maioria dos animais, as mulheres dão total prioridade à sua prole, mesmo que ela ainda nem tenha sido concebida. O motivo é simples, a mulher que o melhor homem para que seus filhos tenham tanta chance de sobrevivência quanto o pai. Mulher nenhuma quer que seus filhos morram antes dela.
O critério de seleção dos homens é um pouco mais simples: eles buscam sempre a mulher com os melhores atributos físicos, ou seja, as mais jovens e saudáveis. Beleza e definição corporal não é um fator de eliminação. A menos, que essa mulher tenha algum tipo de deficiência física.
O motivo é que, assim como as mulheres, os homens também desejam que seus filhos tenham chance de sobrevivência. Se eles forem tão saudáveis quanto sua mãe, então com certeza terão maiores chances. Eles preferem as mais jovens, pois são as que têm maiores chances de ter uma gestação sem complicações e ainda viver tempo suficiente para criar bem os filhos.
Dessa forma os seres humanos irão habitar o planeta por milhares de anos. Sempre procurando a melhor combinação genética para sua prole e sempre aumentando cada vez mais a chance de sobrevivência da espécie.
Conforme o tempo passa, os humanos descobrem e inventam coisas novas e passam isso a seus descendentes, para que eles usem esse conhecimento para aprimorar suas chances de sobrevivência e reprodução.
Veja o tempo passar. Veja como os humanos evoluem. Veja-os se multiplicarem, aprimorarem suas ferramentas, suas técnicas de obtenção de alimento, suas roupas, suas armas, aprendendo a se comunicar de forma escrita, aprendendo a construir coisas com madeira e pedra. Veja-os aprendendo, inventando, descobrindo. Veja-os vivendo por cada vez mais tempo por esses motivos.
Agora eles estão muito mais evoluídos do que vimos antes e já não são mais trinta, mas sim centenas. Eles construíram moradias, domesticaram animais para usar como transporte ou alimento. Muitos deles têm algum tipo de plantação em casa e todos estão mais bem vestidos.
Tudo isso era esperado de se acontecer. Entretanto, algo que não imaginávamos está acontecendo: os humanos começaram a matar uns aos outros. O homem ficou mais violento, embora o motivo continue sendo a sobrevivência.
Veja aquele homem entrando naquela plantação para roubar alguns vegetais. Ele provavelmente não sabe, não pode ou não quer plantar sua própria comida e a alternativa que lhe resta é roubar dois demais.
O dono da plantação vê a cena e fica com raiva. Então, ele parte para cima do ladrão espancando-o com um pedaço de madeira. Ele está protegendo a comida que é dele e da sua família, ele está cuidando da sobrevivência da sua família. O ser humano agora tratou de cuidar apenas da sobrevivência da sua própria família e não da comunidade toda, como acontecia antes. Percebemos uma das conseqüências dessa evolução quando percebemos que o ladrão agora está morto.
Algumas pessoas presenciaram a morte, em meio ao bando de pessoas que assistia, estavam os familiares do ladrão, que – como é de se imaginar– sentiram tristeza, seguida por raiva. Um dos filhos do homem pega uma pedra e a atira no homem que acabou de matar seu pai. A pedra acerta nas costas do homem, que se vira imediatamente e parte, furioso, em direção ao menino.
No mesmo instante, a mãe se coloca na frente do filho e implora aos berros para que o homem pare. Ele, furioso, fala algo para ela e sai de perto. A mulher pega os filhos e vai embora.
Agora imagino que você possa imaginar o que irá acontecer. Pode não ser hoje, nem daqui alguns dias, mas quando aquele menino tiver condições de enfrentar aquele homem, ele irá fazê-lo e provavelmente vai matá-lo.
As relações humanas evoluíram junto com a espécie. Agora eles têm laços mais profundos e complexos. Um filhote de alguma espécie animal não demonstra nenhum tipo de sentimento ao ver a mãe ou pai morrerem. Isso acontecia com os humanos até algum tempo atrás, mas agora é diferente.
A variedade de emoções que as pessoas sentem aumentou, bem como a interpretação delas. Quando uma pessoa sente tristeza, ela sabe que isso é um sentimento ruim, quando sente alegria, sabe que é bom e busca sentir isso sempre. Entretanto, quando sente raiva, não sabe interpretar o sentimento e geralmente fala e age sem pensar.
Vamos agora deixar que o tempo passe à nossa frente mais um pouco e vamos observar como os humanos evoluem. Veja como eles continuam descobrindo emoções e interpretando-as. Veja como algumas emoções permanecem sem interpretação. Veja como eles desenvolvem uma necessidade.
Uma criança vê sua mãe morrer de causas naturais e, embora ela saiba que isso faz parte da vida, ela busca uma razão especial que explique por que as pessoas morrem, ela questiona o que acontece depois que se morre. Nem essa criança, nem qualquer adulto conseguem dar uma resposta. Todos simplesmente admitem que a hora em que uma pessoa deve morrer é determinada por algum tipo de força maior, um deus.
A atitude mais lógica? Adorar esse deus para que ele permita que as pessoas possam viver por mais tempo. O que acontece? Realmente, as pessoas vivem mais tempo a cada geração que se passa, mas não por causa desse deus, mas simplesmente pela evolução da espécie.
Quando uma pessoa confabula algo, tenta e vê que deu algum resultado, ela admite que aquilo funciona. Nesse caso, os humanos começaram a acreditar que adorar a essa força superior funcionava. Se essa força tem poder suficiente para dar ou tirar a vida de uma pessoa, então provavelmente ela tem poder para várias outras coisas, certo?
Desde então, as pessoas tem pedido todo tipo de coisa a essa força e também tem atribuído todo tipo de coisa a ela. Se o inverno matou a plantação, foi a força quem quis ou os donos da plantação quem não adoraram a força o suficiente.
Conforme o tempo passa, podemos notar que não somente as pessoas evoluem, mas também o conceito dessa força invisível que governa o mundo. Com o tempo, ela passa a receber vários nomes, várias atribuições e formas. Entretanto, todos ainda admitem que ela seja algo bom, desde que receba um bom tratamento e seja adorada.
A imaginação e a curiosidade humanas levaram as pessoas a imaginarem onde essa força vivia. Com certeza seria um lugar tão bom quanto a própria força. Pode-se imaginar que, inevitavelmente, as pessoas passaram a querer viver nesse lugar também.
Entretanto, se a força é invisível, sua morada também deve ser. As pessoas sabiam que simplesmente não poderiam morar em um lugar invisível, mas a ânsia por viver nesse lugar continuava aumentando. Concluíram que só poderiam viver para aquele lugar depois da morte, quando abandonassem seus corpos e assumissem a forma invisível.
Dessa forma, quando uma pessoa morria, seus familiares continuavam sentido tristeza, mas também certo conforto ao saber que aquela pessoa agora estava num lugar bom, junto à força superior.
A espécie humana continuou a sua evolução e ela foi muito rápida. Rápida demais para a capacidade de adaptação do homem. Muitas pessoas agora acreditam que podem controlar a força superior e dizem ter poderes mágicos, até mesmo divinos.
A falta de interpretação para algumas emoções que levam as pessoas a agirem por instinto agora os levou as pessoas a entrarem em guerra. Antigamente, as pessoas matavam umas às outras apenas por motivos pessoais. Agora, se matam sem mesmo saber o motivo.
Há algum tempo existe um conjunto de regras que rege as relações humanas para garantir que todos possam sobreviver, mas as regras são falhas e sempre precisam ser mudadas. Isso é feito pelas pessoas com maior capacidade intelectual, que são escolhidas pelos demais para governá-los.
Ao mesmo tempo e conforme a evolução da interpretação das emoções foi se modificando, as próprias pessoas criaram um conjunto de regras para as relações interpessoais.
Como sempre, os motivos para a criação dessas regras são a sobrevivência e a reprodução. Se antigamente, as mulheres usavam a aptidão de um homem para a caça como critério, hoje isso não é mais necessário. Basta que um homem tenha dinheiro para que possa garantir comida para sua família.
Para evitar que homens pobres, doentes fracos ou com qualquer outro tipo de condição que lhes impeça de ganhar dinheiro force uma mulher a gerar seu filho, foi criado um sistema de proteção. Se uma mulher não mostrar seu corpo em público, ela tem menos chances de ser forçada a ter um filho com um homem que não tem condições de ser um bom pai.
Desde então, temos o conceito de decência, que diz que é errado uma mulher usar um vestido para cima do tornozelo. Há muitas outras regras que dizem o que é certo ou errado do ponto de vista da sociedade, como por exemplo: é errado, para um homem, deixar sua barba crescer demais. Além de esteticamente desagradável, torna-o mais assustador e esconde sua boa saúde.
Desde que o dinheiro foi inventado, foi natural que as pessoas mais aptas à sobrevivência conseguissem juntar mais dinheiro do que as menos aptas. Logo, a riqueza é para poucos, enquanto que o restante vive com pouco dinheiro e alguns até passam fome por conta disso.
Conforme o tempo passa, as pessoas vão evoluindo, bem como a interpretação das emoções. Estamos agora em 2010 e é aceitável que uma mulher use um vestido na altura das coxas e com um decote bastante aberto.
As normas da sociedade evoluíram junto com as próprias relações humanas. Se antigamente uma mulher fazia sexo com o objetivo de ter um filho, hoje boa parte delas o faz apenas por prazer. Isso acontece pelo fato de que a interpretação e as normas envolvidas em torno do desejo e de prazer sexual evoluíram e também pela invenção dos métodos anticoncepcionais.
Hoje, muitas mulheres fazem sexo sem compromisso, fazem sexo com amigos ou mesmo ficam apenas uma noite com homens que conhecem em festas. Portanto, as mulheres estão sendo cada vez menos seletivas na escolha de seus parceiros sexuais, pois não pretendem ter um filho com eles, então a aptidão à sobrevivência torna-se cada vez menos importante. Tudo o que basta é desejo e um pouco de confiança.
As leis garantem que as pessoas não matem umas às outras por qualquer motivo, bem como não forcem mulheres a fazerem sexo. A religião trata de guiar as pessoas ao caminho de suas próprias leis, criadas ao longo dos séculos e com as mesmas duas finalidades que acabo de dizer. As pessoas ainda acreditam na força superior, de formas diferentes, mas sempre uma força que é boa e que está além dessa vida.
Agora, meu bom amigo, deixo-o aqui pedindo que reflita sobre o que acabamos de presenciar. Afinal, tudo é sobrevivência e reprodução.

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